Em tempos em que o sentimento planetário de urgência surge em decorrência de uma pandemia, não há quem não sinta, seja física e/ou mentalmente algum efeito da situação. As pessoas são em geral atormentadas pelo medo de ficar doente, de perder alguém, ou se deparam com a ansiedade provocada pelo longo período em isolamento. Os efeitos negativos do isolamento social, que incluem sintomas de estresse pós-traumático, confusão, raiva, pânico, dentre outros - como preocupações com a escassez de suprimentos e perdas financeiras - confirmam a relevância de intervenções psicológicas alinhadas às necessidades emergentes no atual contexto de pandemia. A partir da observação desses efeitos na população e do sofrimento psicológico crescente durante a crise do novo coronavírus, e objetivando ganhos em termos de saúde pública em relação à possibilidade real do atendimento psicológico on-line ter seus efeitos psíquicos, o município de Paraíba do Sul estruturou as atividades do Ambulatório de Psicologia em um programa de atendimento on-line para a população e funcionários da linha de frente do combate à pandemia nos serviços de Saúde e Assistência. O serviço teve início em 20/03/2020 e segue em curso até o momento atual. A questão do acesso da população aos serviços de cuidados em Saúde Mental constituiu-se a principal questão a ser atendida pelo projeto, por se tratar de problemática emergente, que demanda resposta rápida e efetiva.
Fornecer um espaço de fala/escuta das demandas psicológicas da população em decorrência das possíveis implicações da pandemia e do isolamento social da quarentena. Oferecer espaço de informação, orientação e conscientização sobre aspectos das eventuais mudanças de hábitos que visem diminuir os riscos de contaminação e as possíveis implicações emocionais acarretadas por essas mudanças cotidianas. Estruturar um programa em que as triagens e os acolhimentos possam ser direcionados a outros dispositivos da rede de saúde e parceiros intersetoriais do município, quando necessário o atendimento presencial. Identificar grupos prioritários, considerando as especificidades da população Fornecer suporte psicológico aos funcionários de atuação na linha de frente de combate à pandemia. Contribuir para a qualidade da Saúde Pública. Organizar as demandas e o fluxo da saúde mental no município.
O serviço é acessado através de um número de whatsapp e funciona por telefone ou videoconferência, todos os dias da semana, 12hs por dia, por 9 psicólogos e duas terapeutas ocupacionais, organizados conforme o repasse dos contatos e demandas da população pela coordenação de Saúde Mental, seguindo protocolos e notas técnicas do Conselho Federal de Psicologia e MS. Ao acessar o serviço, as pessoas são orientadas pela coordenação de Saúde Mental, de que forma iniciarão o acompanhamento junto aos psicólogos, que realizam o primeiro acolhimento e triagem. Cada caso é atendido e direcionado a demais serviços de Saúde Mental e Assistência da rede conforme a necessidade. O projeto propõe um atendimento pontual, breve, segundo a demanda de cada caso, com um único atendimento ou algumas sessões, com o objetivo de auxiliar na travessia das dificuldades psicológicas deste período, diferenciando-se assim de um tratamento psicoterapêutico. A frequência e duração dos atendimentos são estabelecidas por cada profissional. Além disso, foram disponibilizados à população, em mídia eletrônica, materiais sobre a doença (prevenção/controle/saúde mental). O diálogo com os demais dispositivos da rede (CREAS,CRAS, UBS, Conselho tutelar, Serviço de psiquiatria, hospital geral), bem como as parcerias intersetoriais tem sido instrumentos de organização do suporte estruturado com bases e fontes científicas e com a dimensão do monitoramento e avaliação do projeto em tempo real.
Desde seu início em 20/03/2020, o projeto já atendeu 1.678 pessoas até a data de 30/06/2020. Desses atendimentos e avaliações, 232 pacientes aderiram ao acompanhamento e permanecem em atendimento semanal. Dessa última amostra, verificamos que 62 são profissionais que estão na linha de frente ao combate do COVID-19. Dos pacientes que permaneceram em atendimento, 78% são mulheres e a maioria dos homens está na faixa etária entre 17 e 23 anos. O atendimento tem manejado e proporcionado compreensão técnica das mais diversas reações esperadas nesse tipo de evento e indicadores de risco. Além de oferecer apoio, cuidado e estabilização emocional aos usuários, alimenta a produção teórica/científica que se presume ser essencial futuramente na área de saúde. Estabilização de crises, acompanhamento das necessidades de saúde mental da população, atuação junto aos profissionais da linha de frente de combate à pandemia tem sido alguns dos resultados abarcados pelo projeto. Os profissionais de saúde tem reportado ao atendimento psicológico seus estresses e medos (contrair a doença, transmiti-la a seus familiares, estarem afastados de seus lares, sensação de perda de controle e de desvalorização, além de preocupação com o tempo de duração da epidemia). Muitos deles adoeceram e retomaram o trabalho durante todo o suporte psicológico – o que traz a dimensão da importância desse acompanhamento.
Atender às urgências psíquicas face ao distanciamento social tem sido desafiador, porém exitoso. A convocação dos demais dispositivos da rede de saúde e das parcerias intersetoriais, com destaque para a secretaria de Comunicação, mostra-se essencial para a estruturação e alcance do suporte emocional e das propostas psicoeduactivas intencionadas pelo projeto. A resolução da questão inicial sobre o cuidado em saúde metal da população e o acesso da mesma aos atendimentos tem se construído diariamente. Nesse contexto, ainda que de forma remota, sugere-se a oferta de primeiros cuidados psicológicos, os quais envolvem assistência humana e ajuda prática em situações de crise, buscando aliviar preocupações, oferecer conforto e ativar a rede de apoio social. Dadas a crescente demanda relacionada à saúde mental nesse período, a escassez de profissionais capacitados para acolhê-la e a necessidade de respostas rápidas e eficientes, o município de Paraíba do Sul mantém o projeto atuante e sugere o apoio governamental à disseminação de tais experiências. O projeto se torna, no cenário atual, uma prática concreta na saúde brasileira do arcabouço teórico do SUS, no qual a tríade essencial é prevenir, cuidar e reabilitar.
Atendimento Remoto, Serviço de Saúde Mental, Enfrentamento ao COVID-19.