Nos territórios de atuação da Atenção Primária à Saúde (APS), os efeitos da pandemia pelo novo coronavírus têm causado preocupação aos profissionais de saúde devido aos números de casos confirmados e óbitos, bem como, pelos índices insuficientes de distanciamento social e medidas de etiqueta respiratória. No município de Itabaiana/SE essa realidade não é diferente e o bairro São Cristóvão concentra o segundo lugar em número de casos positivos de COVID-19, atrás apenas do Centro da cidade (Vigilância Epidemiológica do Município). Diante deste contexto, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) da Equipe de Saúde da Família (ESF) lotados na Clínica de Saúde Dr. Ormeil Câmara de Oliveira, localizada no Bairro São Cristóvão, Itabaiana/SE, desenvolveram múltiplas ações para o enfrentamento do vírus, seguindo os princípios da Educação Popular em Saúde. As ações ocorreram no período entre abril e julho de 2020 e tiveram como público-alvo toda a comunidade visitada pelos doze ACS que integram a equipe. A Educação Popular em Saúde (EPS) é uma prática voltada para ações em saúde “a partir do diálogo entre a diversidade de saberes, valorizando os saberes populares, a ancestralidade, a produção de conhecimentos e a inserção destes no Sistema Único de Saúde (SUS)”. (Curso de Aperfeiçoamento em Educação Popular em Saúde).
• Divulgar e informar a importância das medidas de prevenção e controle à COVID-19, utilizando ferramentas interativas • Auxiliar no aumento dos índices de distanciamento social na comunidade, contribuindo para o controle dos índices de contaminação e disseminação do vírus • Fortalecer o vínculo entre os ACS e a comunidade por meio da educação em saúde • Ressignificar, à luz dos princípios da EPS, o papel do ACS e o seu protagonismo, bem como a importância da participação comunitária no enfrentamento à COVID-19.
Trata-se de um trabalho com múltiplas abordagens qualitativas de EPS: utilização de cartazes, teatro, vídeos e áudios de músicas compartilhados em redes sociais. O diálogo, a amorosidade e a construção compartilhada do conhecimento foram os princípios da EPS mais utilizados. Os cartazes foram elaborados com mensagens de apoio às famílias e incentivo às medidas de controle por meio de códigos e frases ilustrativas, percorrendo o bairro utilizando o veículo mini buggy como suporte. O teatro, por sua vez, surgiu com a caracterização como cadáver do ACS Messias que, com o corpo pintado de branco e vestindo-se com um saco preto contendo frases de aviso, circulou pelo bairro alertando sobre a letalidade do vírus. Outra abordagem se fez com o convite a moradoras com características de liderança comunitária para gravação de vídeos com mensagens que foram compartilhados nas redes sociais, tanto junto à comunidade do bairro como também nos diversos grupos sociais dos profissionais de saúde do município. Aproveitando-se de uma característica que é peculiar a algumas famílias, trabalharam-se músicas internacionais compartilhando áudios em aplicativo de mensagens com o ACS Messias cantando e traduzindo o sentido da obra. Aplicaram-se recursos simples e de fácil acesso como: cartolina, balões infláveis, tinta à base de água, caneta, lápis, papel, cola branca, fita adesiva, tesoura, papelão, saco de estopa, além de celular com câmera e acesso à internet (recurso particular).
Na utilização dos cartazes, além dos materiais elaborados pelos ACS, as crianças da comunidade foram incentivadas a participar fazendo desenhos com mensagens de apoio ao distanciamento social nas portas de suas residências. A moradoras da comunidade Elizete, líder espiritual e professora de yoga, gravou vídeos introduzindo conceitos de espiritualidade e meditação, passando mensagens de fé e esperança. Ocorreram ainda a participação de Luciene e suas filhas Leticia e Lucilene que criaram um repente alertando sobre a importância do distanciamento social, mas também, homenageando os profissionais de saúde. Foram compartilhados 100 áudios de músicas internacionais com as famílias que gostam deste estilo. O compartilhamento dos áudios está dando a oportunidade de um momento de descontração e interatividade para que as famílias enfrentem este momento de forma lúdica, sentimentos expressos em diversas mensagens de apoio ao trabalho. Os usuários também podem contribuir com sugestões de músicas. Participam cerca de 110 pessoas na lista de transmissão dos recursos audiovisuais (vídeos e áudios produzidos) veiculados em aplicativo de mensagens instantâneas de largo alcance no bairro. Como resultados principais dessas ações, destacam-se: aumento dos índices de distanciamento social, verificado a partir das visitas dos ACS às ruas de suas micro áreas, o fortalecimento do vínculo dos profissionais com as famílias, e sobretudo, a participação comunitária, o grande diferencial.
Em tempos de pandemia, o reconhecimento da educação em saúde torna-se extremamente necessário, sobretudo, porque tais ações significam maior resolutividade ao problema enfrentado. As medidas de prevenção e controle à COVID-19 foram massivamente trabalhadas em todas as ações abordadas. As redes sociais se tornaram importantes ferramentas para a divulgação de conteúdo, além de cumprir o distanciamento social. As atividades de enfrentamento realizadas pelos profissionais da UBS do São Cristóvão estiveram alinhadas aos princípios da EPS e os permitiram repensar o cuidado em saúde e a importância da EPS para a sua formação profissional e humana. Os gestores municipais devem lembrar que os ACS em seu processo de trabalho identificam fatores socioeconômicos, culturais e ambientais que podem interferir na saúde das pessoas e esta função deve ser valorizada na elaboração de políticas públicas. Por fim, entende-se que este movimento transformador, que ocorreu na UBS do bairro São Cristóvão, alicerçado nos princípios da EPS, pode e deve acontecer em outros espaços territoriais.
Participação Comunitária, Educação Popular em Saúde, Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, Agentes Comunitários de Saúde, COVID-19.