De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia e o Conselho Federal de Medicina, o número de nefrologistas no Brasil aumentou de 3500 para 4400 entre 2008 e 2018, ou seja, cerca de 25%. No mesmo período, o número estimado de pacientes em diálise aumentou de 87.044 para cerca de 133.000, o que representou elevação de 52%. Além disso, há grande variabilidade na distribuição desses profissionais nas diferentes regiões do país, sendo de 0,7 nefrologista para cada 100.000 habitantes em estados da região Norte e até 6,7 por 100.000 habitantes nas regiões Sul e Sudeste. Estudos demonstram que essa desproporção ocorre em todos os continentes do mundo, inclusive em países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, entre 1996 e 2012, enquanto o número de pacientes em diálise aumentou entre 300.000 e 500.000, o número de nefrologistas para cada 1.000 pacientes em diálise caiu de 18 para 10. De acordo com o KDIGO (Kidney Disease Improving Global Outcomes), devem ser encaminhados para consulta com nefrologista pacientes com doença renal crônica (DRC) nos estágios 4 e 5 e pacientes com albuminúria severa. O Ministério da Saúde do Brasil preconiza a referência ao especialista nos estágios 4 e 5. Estudos têm demonstrado que a referência tardia ao nefrologista está associada a piores desfechos e maiores custos. Por outro lado, há publicações que sugerem que muitos pacientes encaminhados para consulta com nefrologista poderiam ser acompanhados em atenção primária à saúde (APS).
Considerando a falta de nefrologistas e a necessidade de encaminhamento oportuno, os objetivos do presente estudo foram conhecer o perfil clínico-demográfico e o grau de disfunção renal de pacientes atendidos em primeira consulta com nefrologista em serviços públicos e privados.
O estudo foi retrospectivo, multicêntrico e baseado em informações de prontuários médicos. Foram incluídos três ambulatórios de especialidades da Grande São Paulo, sendo um de natureza pública, que atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e dois privados, que atendem pacientes de operadoras de saúde. Foram analisadas informações da primeira consulta com nefrologista de pacientes ≥18 anos atendidos entre 01/01/2020 e 31/03/2020. Foram excluídos pacientes menores de 18 anos, transplantados renais e aqueles em terapia renal substitutiva. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo sob o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) de número 31053420.9.1001.5505. Os exames laboratoriais de interesse foram as dosagens de creatinina sérica e de proteína urinária. A partir da creatinina, idade e sexo, foi aplicada a fórmula CKD-EPI (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration) para o cálculo da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe). Além disso, os pacientes foram estratificados em três categorias de proteinúria (leve ou ausente, moderada e severa). Os pacientes com dosagens disponíveis de creatinina sérica e proteinúria foram classificados, de acordo com o mapa de risco para DRC, em riscos baixo, moderado, alto e muito alto. O tamanho da amostra foi estimado em 144 pacientes para cada tipo de serviço.
Foram encaminhados sem dosagem de creatinina sérica e de proteinúria 16,2% e 55,8% dos pacientes, respectivamente. Considerando pacientes com HA e sem DM, as taxas de encaminhamento com resultados de creatinina sérica e proteinúria foram de 87% e 48%, respectivamente. Entre os pacientes com DM, 91% e 56% foram encaminhados com dosagens de creatinina e proteinúria. A referência tardia (estágios 4 e 5) ocorreu em 29,9% dos pacientes. Comparados com pacientes dos serviços privados, aqueles atendidos no serviço público eram mais velhos [59 (47-69) versus 51 (38-64) anos, p=0,001], apresentavam maior prevalência de hipertensão arterial (69,7% versus 57,5%, p=0,01) e foram encaminhados mais tardiamente ao nefrologista (35,8 % versus 23,0%, p=0,01). No serviço público, comparado aos serviços privados, houve menor taxa de encaminhamento sem dosagem de creatinina sérica (10,9% versus 21,8%, p=0,004) e tendência de menos encaminhamentos sem avaliação de proteinúria (51,2% versus 60,6%, p=0,06). Comparados com pacientes encaminhados para nefrologista do serviço privado, aqueles do serviço público apresentaram menor chance de ser da categoria de risco baixo de DRC (11,2% versus 32,4%, p<0,001) e tendência a ter maior chance de ser de risco muito alto (40,9% versus 26,4%, p=0,06).
Existem oportunidades de melhoria na estratificação de risco para DRC tanto em serviços públicos quanto privados de saúde. A dosagem de proteinúria, importante elemento de progressão da DRC, parece estar sendo negligenciada em grande parte da população de alto risco para a doença (HA e DM). A referência tardia ao nefrologista ocorre simultaneamente com encaminhamentos de pacientes sem aparente necessidade de seguimento com essa especialidade. Outros estudos são necessários para monitorar a qualidade do cuidado com as fases iniciais da DRC em nosso meio e melhorar o encaminhamento dos pacientes para serviços de nefrologia.
atenção primária à saúde, encaminhamento e consulta, nefrologia, doença renal crônica