A atuação do Agente Comunitário de Saúde (ACS) é fundamental para assegurar a orientação comunitária e as ações no território, na Atenção Primaria à Saúde no SUS. A continuidade do trabalho do ACS é, portanto, fundamental neste momento de enfrentamento da Covid-19 e na identificação de outras condições de saúde da população. Também é função do ACS contribuir na identificação de grupos de risco e vulnerabilidade social e articular com as redes de apoio familiares e da rede de saúde para atender e sanar condições crônicas ou agudas pioradas no cenário da covid-19. O ACS por ser morador da comunidade e ter uma relação mais próxima e de confiança com os usuários é imprescindível para a identificação de grupos mais frágeis e vulneráveis a outras causas em tempo de pandemia especialmente em casos de feridas complexas que necessitam de cuidados e avaliações permanentes, procedimentos hospitalares, acompanhamento com curativos diários e coberturas específicas. A atuação dos ACS, em tempos de Covid-19, é primordial para identificação de situação de risco agudas e/ou crônicas, trazer para a Equipe as demandas e a gestão da melhor forma de cada caso buscando, quando necessário, ações intersetoriais.
Pretendemos relatar as ações intersetoriais implementadas para o tratamento de ferida complexas em tempos de Covid‐19 em uma Unidade Básica de Saúde da zona rural de Teresina - Piauí.
A ACS responsável pela área de cobertura identificou um paciente com uma ferida crônica em membro inferior direito (MID) após um trauma há 15 dias. Por não ter procurado o serviço de urgência no dia do trauma e não ter cuidado adequadamente da lesão, houve evolução crônica da ferida. Apresentava área extensa de necrose que não podia ser removida durante o banho ou durante os curativos devido sua extrema adesão e tempo de evolução. Também havia resistência do paciente em realizar os curativos no domicílio conforme orientações da UBS e após segundo atendimento sem evolução do quadro decidimos entrar em contato com a rede de saúde para tentar encaminhar o paciente para avaliação cirúrgica. Entramos em contato com a Enfermeira do Ambulatório de Feridas (AF) que, apesar de estar fechado para rotinas clínicas devido a pandemia, aceitou avaliar o paciente diante da necessidade de remoção cirúrgica do tecido necrosado. Demonstrando a efetividade da rede, no mesmo dia foi agendada consulta com cirurgião para o dia seguinte no Hospital do Geral do Promorar (HGP). Nesse atendimento na atenção secundária foi feito o desbridamento cirúrgico e limpeza do leito da ferida para que a Equipe pudesse dar continuidade ao tratamento na Unidade. Durante o acompanhamento na Unidade foram feitos curativos diários e entrega de materiais para uso no domicílio.
O curativo foi feito na UBS no dia da avaliação e encaminhamento, onde o paciente orientado aos cuidados e preparação do leito da ferida para a avaliação cirúrgica. Ao se atendido no HGP foi realizado desbridamento cirúrgico com retirada de todo o tecido necrosado restando ainda esfacelo. O paciente foi medicado com antibiótico e retornou para continuidade do tratamento na UBS. Na primeira avaliação na UBS, um dia após o procedimento, já se percebeu melhora após a retirada da grande quantidade de tecido necrosado, iniciamos o tratamento local para remoção de esfacelo com utilização de papaína pomada além de orientações em relação a higienização, curativos em casa aos finais de semana, hidratação, alimentação e cuidados com a pele. Os curativos foram realizados na UBS com o paciente sendo o primeiro atendimento do dia para evitar aglomerações. Foi utilizada a papaína com avaliação diária da evolução da ferida com o curativo feito pela Técnica e avaliação feita pela Enfermeira e Médica da UBS. Após a redução de esfacelos passou-se a utilizar colagenase. Observamos evolução, porém ainda lenta. Entramos em contato novamente com a Enfermeira do AF do HGP, de forma remota, e nos orientou a utilizar papaína em pó. O paciente segue em acompanhamento com evolução gradativa e visível da ferida e presença de bastante tecido de revitalização. Nos curativos diários foram utilizados materiais adequados a cada etapa do tratamento e realizados 02 desbridamentos mecânico pela Enfermeira.
A experiência foi bastante importante pela utilização da rede de saúde para atender um paciente que dificilmente seria atendido pela busca espontânea do serviço visto a redução da demanda espontânea por conta da Covid-19. Percebemos a importância da sensibilidade dos profissionais da UBS (ACS e Equipe) em buscar alternativas à rede de atenção em saúde e do pronto atendimento e colaboração dos colegas do AF de receber esse paciente para ser avaliado pelo serviço de urgência do Hospital Geral do Promorar, onde funcionava o AF, medicado e realização do desbridamento cirúrgico. Com essa ação integrada da rede de saúde conseguimos propiciar tratamento adequado e oportuno ao paciente e evitando que a ferida evoluísse negativamente, inclusive para amputação. Também foi importante a experiência para reconhecer e reafirmar o importante papel da Atenção Primária à Saúde na identificação e condução de casos e tratamento de curativos complexos mesmo com aporte inferior de recursos, porém com a capacidade do acompanhamento próximo (diário) ao usuário.
Infecções por Coronavirus, Atenção Primária à Saúde, Técnicas de Fechamento de Ferimentos, Estratégia Saúde da Família.