A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas prevê atenção diferenciada às populações indígenas, respeitando sua diversidade sociocultural bem como suas particularidades epidemiológicas, observando-se a oferta de serviços na Atenção Primária e a garantia de integralidade da assistência. No município de Guarulhos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 2010, informa cerca de 1433 indígenas, distribuídos em 14 etnias: Pankarare, Pankararu, Wassú-Cocal, Tupi, Kaimbe, Guarani, Geripanko, Guajajara, Xavante, Pataxó, Tupinambá de Olivença, Xucuru, Terena, Tabajara. Atualmente, temos 177 indígenas cadastrados no e-SUS. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde classificou a Doença pelo Coronavírus 2019 (COVID-19) como uma pandemia. A Secretaria da Saúde, de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde, elaborou protocolos e fluxos para o cuidado de toda a população e, no caso da população indígena, efetivou parceria com o Instituto Butantan para realização de testes rápidos sorológicos com diferenciação IgM/IgG, com posterior exame RT-PCR para resultados de IgM reagente, desse modo, tomar medidas necessárias para barrar a disseminação do vírus. A experiência ocorreu em duas etapas, no dia 15/06/2020, na “Aldeia Filhos desta Terra”, território da UBS Cabuçu e, dia 21/07/2020, na UBS Soberana, ambas Unidades de Referência à Saúde dos Povos Indígenas.
Geral Desenvolver ações de diagnóstico e de assistência à saúde para o enfrentamento da pandemia de COVID-19, voltadas à população indígena de Guarulhos em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas do Sistema Único de Saúde. Específicos - Identificar contato prévio com o vírus por meio da testagem rápida. - Detectar a presença de infecção aguda pelo COVID-19 por meio do exame de RT-PCR, estudo do material genético (RNA) do coronavírus; - Providenciar atendimento com equipes médica e multidisciplinar para os casos positivos; - Realizar avaliação clínica de cada caso junto as unidades de saúde; - Intensificar as orientações de isolamento social e medidas de prevenção que evitem a propagação da COVID-19; - Monitorar diariamente na Atenção Básica os casos confirmados, enviando dados à Secretária Especial de Saúde Indígena (MS); - Identificar o perfil epidemiológico da população indígena rastreada.
Inicialmente, realizamos o levantamento no e-SUS dos pacientes indígenas da “Aldeia Filhos desta Terra” e dos que residem na cidade e solicitamos às UBS o encaminhamento de convite para participação às lideranças locais e regionais. Compartilhamos a relação dos indígenas com o Instituto Butantan, visando mensurar a quantidade de insumos, testes rápidos e exames RT- PCR a ser fornecida por ele. A Secretaria de Saúde de Guarulhos viabilizou o espaço e a equipe para a operacionalização da atividade. No momento da testagem, os profissionais da Atenção Básica organizaram o público, acolhendo, preenchendo impressos e oferecendo orientações de enfermagem e consulta médica, sempre mantendo as medidas de distanciamento social. Na sequência, a testagem rápida foi realizada por duas biomédicas do Instituto Butantan, seguida da coleta imediata do exame RT/PCR para os casos IgM positivo; nestes casos, o usuário realizou por avaliação médica e de enfermagem para conduta e orientações. Ao final da testagem, amostras foram direcionadas ao Instituto Adolft Lutz. Os laudos dos exames RT/PCR foram encaminhados diretamente às regiões de saúde e às UBS para que a assistência necessária ocorresse em tempo oportuno. Utilizamos formulário especifico em todas as atividades para a construção de perfil qepidemiológico, contendo informações de ordem sociocultural e de saúde. A população participante recebeu alimentação fornecida pela Subsecretaria da Igualdade Racial da Secretaria de Direitos Humanos.
Foram testados 106 indígenas do total de 177 cadastrados no município de acordo com o quesito raça/cor informado no e-SUS, 40 na primeira etapa, na comunidade indígena da “Aldeia filhos desta Terra” e 66 na segunda etapa, na UBS Soberana, com cobertura de testagem para o COVID-19 de 59,88 % nesta população. Participaram 6 etnias: Pankarare, Pankararu, Kaimbe, Xucuru, Guajajara, Wassu-Cocal, sendo 51,88% de mulheres, 45,28% de homens, 2,83% de crianças menores de 2 anos e 9,43% de pessoas acima de 60 anos. Dos 106 indígenas testados, 28 foram positivo para IgM/IgG (26,41% do total). Em relação aos resultados do exame RT/PCR, 26 tiveram resultado negativo e 2 positivo. Na testagem rápida dos 40 indígenas da Aldeia, 5 indígenas tiveram resultado positivo (12,5% do total); no entanto, nenhum deles apresentou carga viral detectável no exame RT/PCR. Quanto aos 66 indígenas testados na UBS Soberana, 23 testaram positivo (34,84% do total), dos quais 2 apresentaram carga viral detectável no exame RT/PCR (3,07% do total). Todos os casos com resultado positivo foram acompanhados pelas equipes médica e multiprofissional das duas Unidades de Referência à Saúde dos Povos Indígenas ou demais Unidades Básicas para aqueles que residem na cidade, de acordo com a área de abrangência de cada unidade.
A realização da testagem da população indígena do município de Guarulhos, por meio da parceria entre Secretaria Municipal da Saúde e Instituto Butantan, proporcionou acesso ao diagnóstico e consequente adoção de medidas de enfrentamento e prevenção ao COVID-19. Foi possível identificar aspectos de saúde e socioculturais que se relacionam com a garantia de acesso e continuidade do cuidado em saúde, conforme preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e na Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). Fica evidente a maior exposição ao COVID-19 dos indígenas vivendo na cidade, considerando tanto a maior taxa de positividade no teste rápido quando o fato de que apenas entre estes foi detectada carga viral no exame RT/PCR. As informações provenientes desta ação favorecem a adoção de medidas para o melhor enfrentamento a COVID-19 na população indígena; sugerindo que, também nesta população, o isolamento social permanece como a principal medida para mitigar a propagação do vírus.
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