A COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, apresenta um espectro clínico que varia de infecções assintomáticas a quadros graves, o que desafia as instituições científicas e sanitárias devido à sua grande transmissibilidade e de não haver consensos robustos quanto à caminhos terapêuticos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 80% pacientes com COVID-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos, o que requer ações voltadas para a captação precoce de casos leves/moderados e direcionamento dos casos graves para o atendimento adequado. Nesse sentindo, reconhecendo o papel da Atenção Primária à Saúde (APS) como principal ordenadora das Redes de Atenção à Saúde, mediadora longitudinal e coordenadora do cuidado à saúde da população com grande potencial de identificação precoce de casos graves que devem ser manejados em serviços especializados, o município de Tejuçuoca no Ceará adotou como premissa para implementação das ações de enfrentamento à COVID-19 a integração entre a APS e a Vigilância em Saúde (VS) e demais setores públicos, visto que tal estratégia possibilita a organização dos processos de trabalho por ações programáticas, baseadas em dados epidemiológicos e evidências científicas, como forma de garantir universalidade, equidade, integralidade no atendimento às pessoas e ampliação do acesso aos serviços de saúde.
Relatar a experiência de implementação do plano de enfrentamento à COVID-19 no município de Tejuçuoca – Ce.
O Plano Municipal de Enfrentamento à COVID-19 foi construído pelas áreas técnicas da saúde, pelas secretarias e instituições parceiras que integram a gestão municipal tais como: Secretaria de Cultura e Turismo, Gabinete de Governo, Juventude e Esporte, Educação e Trabalho. Foi estruturado em quatro dimensões: elaboração do plano, planejamento das ações, execução e monitoramento e avaliação. Nas fases de elaboração e planejamento de ações ocorridas em fevereiro e março de 2020 culminou em uma oficina com os profissionais de saúde (Atenção Primária, Vigilância à Saúde Atenção Hospitalar, Laboratório) e setores da gestão municipal. Na oportunidade, foi feito um alinhamento conceitual sobre o manejo do agravo, a situação epidemiológica e os recursos necessários para o enfretamento. Vale ressaltar que previamente se fez um levantamento bibliográfico de material pertinente à temática, como também dos dados epidemiológicos à época. As demais dimensões envolveram os caminhos assistenciais a serem seguidos (planejamento), como seria implementado o plano (execução) e as estratégias de monitoramento e avaliação das ações. A APS atuou de maneira articulada à VS acompanhando e monitorando os casos leves e moderados de COVID-19 e encaminhando os casos graves para a rede hospitalar, a partir da captação precoce dos pacientes apresentando a sintomatologia, orientados pelo protocolo de manejo clínico na APS do Ministério da Saúde e notas técnicas da Secretararia da Saúde do Ceará.
Foram distribuídos cerca de 5000 kits de higiene doméstica em todo o território do município, insumos de proteção individual para a população em geral (álcool em gel e mais de 30 mil máscaras produzidas por confecções locais), desinfecção de locais públicos, ações de educação em saúde em todo o território priorizando locais de fácil aglomeração (blitz educativas no comércio e bancos), barreiras sanitárias com orientações das medidas preventivas e desinfecção de veículos, provisão de recursos humanos e materiais (estruturação e adequação dos serviços de saúde, capacitação dos trabalhadores da saúde, apoio institucional e cooperação horizontal). As ações assistenciais resultaram em 1167 casos suspeitos notificados com realização de 1191 exames laboratoriais (1094 testes rápidos imunológicos e 97 RT-PCR por coleta de swab), complementados conforme necessidade com outros exames laboratoriais e de imagem. Destes foram 487 casos confirmados com uma taxa de recuperação de 94% todos acompanhados pelas ESF/NASF do município e uma taxa de letalidade de 2,3 (FONTE: INTEGRASUS, 2020). Dentre outras ações realizadas transversalmente, a campanha de vacinação contra a Influenza realizada casa a casa (alcance de 104% de cobertura vacinal entre os idosos), acompanhamento remoto de doentes crônicos e dispensação de medicamentos em domicílio. Ressaltamos também a elaboração de produtos técnicos e peças publicitárias (Plano de contingência, panfletos, planilhas e formulários).
Diante do exposto, a emergência em saúde pública causada pela COVID-19 exige esforços integrados entre as diversas camadas da sociedade uma vez que houve a necessidade de ressignificação do cotidiano e da existência das pessoas e, concomitante a isto, dos processos de trabalho em saúde e mais significativamente no SUS, como por exemplo a utilização de EPIs pelos trabalhadores e os aprendizados voltados para a integralidade e coordenação do cuidado. Logo, o Sistema Único de Saúde (SUS) redefiniu suas prioridades e as ações em saúde se voltaram ao enfrentamento deste novo agravo, culminando no envolvimento dos atores que atuam no campo da saúde, ao reunir a força de trabalho do SUS, o conhecimento técnico-científico, a formulação das linhas-guia, as decisões dos entes gestores, a provisão de recursos, a articulação das políticas, a participação popular e o comprometimento da sociedade como fatores imprescindíveis para o êxito positivo no contexto da COVID-19. Nesse sentido, a atuação potente da APS em articulação com a VS fortalece o SUS, uma vez que é uma relação em que se produz uma estratégia de qualificação e gestão da informação transformando-a em ações promotoras e protetoras da saúde das pessoas.
COVID-19; SUS; Atenção Primária à Saúde; Vigilância à Saúde; Plano de enfrentamento