Diante do cenário de pandemia causada pelo novo Coronavírus, a Prefeitura Municipal de Sorocaba inaugurou em 20 de Maio de 2020 o Hospital de Campanha “Douglas Barbosa de Medeiros”. Com capacidade de operar até 84 leitos, a estrutura do hospitalar foi montada nas dependências da Arena Sorocaba. Com a utilização de recursos humanos providos da própria administração municipal, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, farmacêuticos, psicólogos e assistentes sociais têm desde então disponibilizado atendimentos de enfermaria a pacientes de baixa e moderada complexidade que se encontram com suspeita ou confirmação de COVID-19. Nesse contexto, o uso das tecnologias em saúde tem se mostrado como uma excelente alternativa para que o contato entre pacientes, profissionais e familiares seja realizado de maneira segura. Nesse sentido, a adoção de estratégias e de mecanismos que proporcionem uma comunicação efetiva em conformidade com as diretrizes da Política Nacional de Humanização do Sistema Único de Saúde mostra-se cada vez mais necessária. Entretanto, a particularidade da COVID-19 como uma doença de impacto sem precedentes, torna o processo de comunicação e humanização da assistência à saúde em desafios cada vez maiores, considerando os protocolos de Biossegurança do hospital, no qual a presença de acompanhantes não é possível pelo risco biológico. Diante disso, é fundamental analisar os fatores que fazem dessa problemática uma realidade.
Relatar a experiência das estratégias e desafios da implementação de um protocolo de comunicação entre pacientes internados no hospital de campanha. Nessa perspectiva, serão descritos os métodos utilizados como ferramentas no processo de construção de uma ponte de comunicação entre pacientes e familiares e demonstrados os fatores apontados como diferenciais na busca da realização de acolhimento e humanização da assistência à saúde ofertada.
Considerando a impossibilidade de serem realizadas visitas para os pacientes com suspeita ou confirmação de covid, bem como, a não autorização da permanência de acompanhantes no hospital devido aos protocolos de biossegurança, foi necessário estabelecer um fluxo de comunicação entre familiares e pacientes. A dinâmica da situação e a organização do trabalho da equipe, exigiram a adoção de mecanismos eficientes que contemplassem as necessidades dos pacientes e familiares e ao mesmo tempo proporcionasse um cuidado humanizado potencializando o tratamento. O protocolo de comunicação foi montado para ser utilizado de maneira multiprofissional. Após a chegada do paciente, a equipe de enfermagem coletava dados referentes aos contatos através das informações disponibilizadas no prontuário organizado pela equipe da recepção do hospital. Realizado o primeiro contato da equipe de enfermagem com a família do paciente, um único número de contato com o médico coordenador, serviço social do hospital e psicólogo era disponibilizado com o objetivo de fornecer informações técnicas diárias, prestar apoio às demandas existentes, esclarecer dúvidas e possibilitar a comunicação entre o paciente e seus familiares. Para isso, um Tablet, computadores e telefones celulares foram disponibilizados pelo hospital. A comunicação entre os profissionais de saúde, familiares e pacientes também contou com a utilização da plataforma Whatsapp, através do qual, vídeos e fotos puderam ser compartilhados.
Durante os cinco meses de funcionamento do hospital, um total de 447 pacientes passaram por internações. Nesse período, o protocolo de comunicação sofreu alterações e aperfeiçoamentos da equipe até que um fluxo seguro, eficiente e humanizado fosse alcançado. Através de sua aplicação, a equipe de saúde conseguiu construir uma ponte de comunicação entre todos os envolvidos na assistência ao paciente. Considerando que nem todos os pacientes conseguiam se comunicar de maneira adequada ou passar informações precisas, o protocolo de comunicação contribuiu para a identificação de comorbidades, medicações e outras informações relevantes à saúde do paciente. Além disso, as queixas de angústia e ansiedade de pacientes e familiares foram minimizadas com a adoção do protocolo. A possibilidade de ouvir a voz, observar uma foto ou assistir a um vídeo de seu familiar, proporcionou um maior conforto e segurança para pacientes e familiares. Por fim, a utilização dos recursos tecnológicos mostrou-se ainda como um eficiente recurso de educação em saúde através do qual os profissionais puderam orientar também os cuidadores e familiares sobre os cuidados necessários no período pós internação.
Torna-se evidente, portanto, que a adoção de um protocolo de comunicação pode contribuir para um melhor cuidado do paciente. Da mesma forma, estabelecer um fluxo de informações concretas e proporcionar canais diretos de contato facilita o processo do cuidar em saúde, humanizando a assistência ofertada e minimizando falhas de comunicação. Entretanto, alguns desafios precisam ser superados para que protocolos como esse possam se tornar uma realidade mais amplamente difundida. Nesse sentido, é fundamental sensibilizar toda a equipe de profissionais de saúde sobre a importância e corresponsabilidade da comunicação e acolhimento com pacientes e familiares. Dessa forma, o processo de construção de uma assistência a saúde de qualidade e de enfrentamento das doenças e adversidades poderá ser potencializado no Sistema Único de Saúde, beneficiando profissionais e usuários.
Comunicação Interdisciplinar, Humanização da Assistência, Hospital de Campanha