Em julho de 2020, a Oficina Sempre Viva, oportunizada a pessoas em situação de saúde mental (neurose grave e psicose), no município de Presidente Kubitscheck/MG, completou 1 ano em meio a Covid-19. De maneira, que para celebrar e marcar a data, foi proposto o Projeto Fotografia na Janela. Nesse sentindo, foi realizado entre os meses de julho e setembro, visita domiciliar e para além da conversação, registar o momento com fotografias do usuário, em uma janela de sua casa. Após, com intuito de reunir as fotografias dos demais colegas, e buscar de maneira singular realizar uma exposição, além de ofertar um dos registros ao usuário como lembrança de um tempo vivenciado na pandemia. O município tem cerca de 3 mil habitantes, situado na entrada do Vale do Jequitinhonha, entre duas cidades históricas, Serro e Diamantina, fazendo parte da Estrada Real e do Circuito dos Diamantes. O significante que nomeia a Oficina, tece a trama da territorialidade da região, sendo nos campos rupestres do cerrado, as flores sempre-vivas , em alusão a política pública de saúde mental, buscando resistir para continuar existindo.
Como uma modalidade de tratamento na Atenção Básica do município, a Oficina Sempre Viva, surge com objetivo de promover um espaço de acolhimento, partilha das experiências de vida, produção de valores e cuidado, semanalmente. Suspensa por tempo indeterminado desde o fim de março com o advento da pandemia, buscou-se a partir de então, monitorar os casos, reinventar e promover ações de intervenção aos usuários, de maneira individual. Sendo em julho, o projeto de Fotografia na Janela, concomitante escutar suas angustias frente a pandemia, as expectativas futuras, socializar e promover acesso a direitos. Enfim, materializar através da fotografia, foto (luz), grafia (escrita) escrita da luz, o que por vezes as palavras não seriam capazes de registar.
Na observância e acompanhando do avanço do coronavírus pelo interior de Minas, buscou-se ir avaliando o melhor momento para realização da visita e fotografia. Haja visto, que na ocasião o Estado estava no ápice do pico de transmissão do vírus. No início de julho, foi disponibilizado aos usuários uma carta informativa discorrendo sobre o projeto, através das ACS, outras através de atendimentos na clínica ou de visita domiciliar. De maneira, que as visitas e fotografias foram realizadas observando as normas de biossegurança, dentre: distanciamento mínimo exigido, higienização das mãos com álcool 70%, oferta de mascaras aos usuários e seus familiares presentes. Com escuta acolhedora, foi também socializado informações precisas sobre a situação local em relação ao vírus e formas de prevenção. Após, o convite para que o usuário pudesse escolher uma janela de sua casa para realização da fotografia. Foram realizadas através de celular e tablet. Em seguida, direcionadas ao computador, realizado uma montagem com três fotos e após encaminhada pra revelar. Cada usuário ganhou um registro fotográfico. Por fim, construindo um painel para exposição das fotografias na UBS do município. E através de cada janela se pode reunir o grupo.
E os resultados, apontam através do enunciado dos usuários para uma satisfação, para um sentimento de pertencimento do grupo/oficina, mesmo suspensa temporariamente, de uma melhor compreensão dos possíveis impactos causados pelo distanciamento social. Pela escuta percebemos como eles se sentem valorizados em fazer parte da Oficina, pois proporcionam muitos a se sentirem de maneira significativa como parte integrante no mundo social. No decorrer dos registros, muitos usuários sentiram-se à vontade para realização das fotos com seus familiares. Percebe-se que a oferta desses primeiros cuidados em situação de crise, foi possível aliviar preocupações, trazer conforto e ativar a redes de apoio. Os indicadores são importantes nesse contexto de reinvenção, porque reafirmam a importância do aprimoramento das políticas de saúde mental, nesse tempo de pandemia.
Sabe-se, que o trabalho em saúde mental, em município pequeno, geralmente fica na ampla medicalização, no atendimento individual e na busca de endereçamento a internação. Assim, nota-se que as oficinas, como a de Fotografia na Janela, atua como estratégia clínica, uma extensão da clínica, na atenção à saúde mental, que permite a valorização da subjetividade do sujeito, promove sua (re)inserção social e possibilita a sensibilização no processo de desinstitucionalização da loucura. A grande potência do trabalho é fortalecer o cuidado, mesmo em tempos de distanciamento social, colocando a saúde mental em evidência no território. Ainda, que em meio a pandemia do Coronavírus, onde vimos necessário fechar nossas portas, a ver e a viver o mundo por meio das janelas, realizarmos um jeito singular de celebrarmos um ano da Oficina Sempre Viva. O convite que fica, é que possamos nos descobrir dóceis ao ressignificar as janelas de nossa “casa”, de nossa “morada”, de maneira singela, ao manter o contato com o mundo, mesmo estando dentro de casa, de nossa morada.
Covid-19; Saúde Mental, Oficina Sempre Viva e Fotografia na Janela.