No Brasil, a interiorização da pandemia e seu avanço em direção às cidades menores revela uma situação preocupante em razão da menor disponibilidade e capacidade dos serviços de saúde. O município de Quissamã, do Norte Fluminense, confirmou o primeiro caso de COVID-19 no dia 11 de abril e óbito no dia 21 de maio de 2020. Até o dia 11 de agosto, já haviam confirmados 328 casos e 15 óbitos. Estudos já realizados sobre a soroprevalência de COVID-19, apontam que os casos confirmados nas estatísticas oficiais, representam apenas a ponta do iceberg. Conforme entendimento da OMS, detectar evidências de exposição a um patógeno pela realização de testes sorológicos de uma amostra aleatória da população é um método importante para estimar o verdadeiro número de indivíduos infectados. Dessa forma, a Prefeitura de Quissamã, através da Cooperação GT COVID 19 UFRJ-Macaé, propôs a realização de pesquisa nos moldes da EPICOVID-BR, a fim de estimar o percentual de infectados na população. Esse conhecimento permitirá subsidiar a tomada de decisões baseadas em evidências para o enfrentamento da pandemia no município. É importante ressaltar que a demanda surgiu da Prefeitura de Quissamã e durante o percurso foi possível desenvolver parcerias e um processo de educação permanente. Portanto, a questão sobre como enfrentar a pandemia a partir das melhores evidências científicas e da defesa da vida motivou a cooperação técnica estabelecida entre a Prefeitura e a UFRJ - campus Macaé.
Estimar o percentual de moradores do município de Quissamã infectados com o SARS-CoV-2; Determinar o percentual de infecções assintomáticas ou subclínicas; Avaliar os sintomas mais comumente relatados pelos infectados; Fornecer estimativas do percentual de infectados, permitindo cálculos precisos da letalidade da doença; Subsidiar o planejamento de estratégias de enfrentamento do COVID-19 com base nas estimativas obtidas; Obter informações precisas para a tomada de decisões com base em evidências; Desenvolver a educação permanente com docentes, alunos e trabalhadores de saúde para fortalecimento do Sistema Único de Saúde - SUS.
Trata-se de um inquérito transversal, de base populacional, por seleção aleatória de domicílios, proporcionalmente distribuídos nas áreas de abrangência das 9 Unidades de Saúde da Família (USF) do município de Quissamã-RJ. A amostra do estudo foi composta por um pouco mais de 1% da população (24.700 hab.- IBGE), totalizando 250 pessoas, contemplando áreas urbanas e rurais. A amostra foi distribuída proporcionalmente ao tamanho da população cadastrada em cada uma das 9 USF´s do município. Os domicílios foram selecionados aleatoriamente, através de sorteio com base no número de cadastro das famílias nas USF´s. Foi incluído no estudo apenas um morador fixo de cada domicílio, selecionado através de sorteio. A coleta de dados se deu no âmbito domiciliar, através da aplicação de questionário e realização de teste rápido para detecção qualitativa dos anticorpos IgG e IgM para COVID-19. Os entrevistadores foram os enfermeiros das equipes de Saúde da Família (eSF), enfermeiros que atuam no Centro de Triagem Respiratória (CTR) e contaram com o apoio de 39 Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Estiveram envolvidos no estudo 10 enfermeiros, que foram previamente treinados para a realização do teste rápido pela Secretaria de Vigilância do município e para a coleta de dados pelos pesquisadores e estudantes da UFRJ-Macaé e UFPel. O estudo atende os preceitos éticos e legais da pesquisa e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UFRJ-Macaé (Parecer nº 4.204.495).
O inquérito domiciliar ocorreu nos dias 12, 13 e 14 de agosto de 2020, no período de 8h às 17h. A população do estudo foi composta por 250 participantes, sendo 64,8% do sexo feminino, 35,2% do sexo masculino, a média de idade foi de 47 anos, 50% se autodeclarou parda e 46,8 % informou ter cursado o ensino fundamental. Ao todo foram realizados 250 testes sorológicos, sendo que 239 (95,6%) apresentaram resultado não reagente e 11 (4,4%) apresentaram resultado reagente, sendo que desses, 7 (63,6%) tiveram apenas IgG reagente. A soroprevalência foi mais elevada em áreas urbanas com maior frequência no território da unidade de Mathias, onde 8,9% dos testes deram reagente. Sobre o distanciamento social, 37,6% dos entrevistados responderam que conseguem fazer “bastante”,já entre os que tiveram resultado reagente, 45,5% responderam que conseguem “mais ou menos”. Em relação aos sintomas e comorbidades referidas pela população avaliada, dos indivíduos com resultado reagente para a Covid-19, apenas 1 participante (9,1%) relatou ter apresentado sintomas (perda de paladar e olfato) e dentre as comorbidades, 18,2% referiram ter hipertensão, 9,1% asma e bronquite, 9,1% alguma cardiopatia e 9,1 % outras doenças crônicas. Foi realizada também a testagem dos contatos domiciliares dos participantes que apresentaram resultado reagente para Covid-19. Ao todo, 27 familiares foram testados, sendo que desses, 40,7% tiveram resultado não reagente e 29,6% resultado reagente para Covid-19.
A soroprevalência (sem ajuste) encontrada foi 4,4%, sendo ela 3 vezes maior que a obtida nos dados da Prefeitura (1,3%). Assumindo que 4,4% da população foi exposta ao vírus, teríamos aproximadamente 1.087 infectados e o coeficiente de letalidade passaria a ser de 0,8%. Entre os casos positivos apenas 1 participante relatou ter apresentado algum sintoma nas duas semanas anteriores, chamando atenção para o número de infecções assintomáticas, ressalta-se a importância em estimar o percentual de infectados na população e corroborando com diversos estudos científicos que apontam para os perigos de não ser conhecido o verdadeiro nível de transmissão da doença. Apesar da soroprevalência estimada no estudo ser maior que a obtida nos dados oficiais, ainda é considerada baixa, apontando para o número de pessoas ainda suscetíveis ao COVID-19 no município. A pesquisa, fruto da parceria entre a UFRJ-Macaé e a prefeitura de Quissamã, contribui para o planejamento de medidas efetivas de enfrentamento da COVID-19 e reforço das medidas preventivas, com análises dos indicadores epidemiológicos no Painel Covid-19 semanalmente. Foram realizados debates ao vivo nas redes sociais, apoio às equipes de saúde locais em um processo de educação permanente.
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