O município de São Lourenço do Sul, sendo referência no atendimento à saúde mental, recebe anualmente profissionais através da Residência Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva. No ano de 2020, as atividades dos novos residentes iniciaram próximo ao dia em que o estado do Rio Grande do Sul decretou situação de calamidade pública. Além disso, o município conta com uma equipe de agentes redutores de danos (ARD), que trabalham com uma política que visa à garantia do direito de todos à saúde, propondo-se a reduzir as consequência na saúde, e na vida social e econômica dos usuários que fazem uso de drogas lícitas e ilícitas, sem ter como meta a abstinência. Por conta deste ano atípico, houve a necessidade de reorganizar as atividades das residentes multiprofissionais e dos ARD, garantindo as orientações de distanciamento social. Dentre as novas estratégias, destacam-se: a intensificação de contatos telefônicos, visitas domiciliares e hospitalares, realizadas pelas residentes em conjunto com os ARD; a discussão de casos com a equipe do serviço e com outros serviços da rede de saúde e assistência; e a reformulação dos planos terapêuticos dos usuários.
Com a reorganização das estratégias de cuidado, o projeto teve como objetivos: orientar os usuários acerca dos cuidados em período de pandemia; discutir casos com os ARD, equipe do CAPS AD, bem como com outros serviços da saúde e da assistência; intensificar as ligações telefônicas e visitas domiciliares; reestruturar os planos terapêuticos singulares; organizar novas rotinas em conjunto com os usuários, em consequência da mudança das atividades de vida diária; identificar demandas imediatas para o serviço social, como a necessidade de cestas básicas e auxílios sociais; e verificar a necessidade de internação e das visitas hospitalares.
O presente trabalho é um relato de experiências das residentes em saúde mental coletiva, sendo uma Assistente Social e uma Educadora Física, no momento que o distanciamento físico é preconizado. Em conjunto com os três ARD, os casos vem sendo discutidos semanalmente, para avaliar os usuários que foram percebidos sinais de risco ou que se encontram em situação de vulnerabilidade social; os que podem ser acompanhados por meio de contato telefônico e/ou de forma presencial, e que necessitam de um olhar de um técnico do CAPS AD e/ou de internação; os que demandam acompanhamento em consultas e na retirada de exames e medicações; aqueles que apontam a necessidade do auxílio emergencial ou outros auxílios assistenciais; e os que precisam frequentar a ambiência do serviço. Sendo assim, entendeu-se a necessidade de intensificar ligações telefônicas e disponibilizar atendimento presencial no serviço nos casos mais graves, ou naqueles em que foram percebidos sinais de risco. Também foram intensificadas as visitas domiciliares e hospitalares para os usuários que haviam necessidade de uma escuta mais qualificada, de modo a atender situações de crise, conflitos familiares, situações de urgência, bem como realizar atendimentos individuais no território, garantindo os cuidados de higiene e o distanciamento social.
Durante a experiência no Centro de Atenção Psicossocial, as duas residentes, em conjunto com os ARD, identificaram situações de usuários com sinais de alarme por conta da pandemia e observaram situações de vulnerabilidade social em função da pandemia. Nas escutas, principalmente as realizadas nos territórios, foi possível perceber os conflitos familiares que se intensificaram por conta do isolamento social; o impacto econômico que afetou diversos trabalhadores informais; as recaídas ao uso de álcool e outras drogas, por aqueles usuários que preconizavam a abstinência; e o adoecimento por conta da mudança no Plano Terapêutico. Nestas situações, foram realizadas discussões de casos com os técnicos de referências e com outros serviços, de modo a garantir o suporte aos usuários, através de atendimentos e encaminhamentos para os serviços primários de saúde, serviços de assistência social e hospital, sempre que necessários.
Diante do atual cenário, é necessário perceber que o cuidado em saúde mental precisa se reinventar, seguindo as novas recomendações. Este trabalho aponta algumas alterações no modo de trabalhar das residentes multiprofissionais e dos ARD. Desse modo, reforça-se a importância do trabalho de base comunitária, que se torna uma estratégia de enxergar os usuários com um olhar biopsicossocial, ampliando as formas de cuidado ao perceber as dificuldades vivenciadas pelos sujeitos, preconizando um cuidado mesmo em tempos de distanciamento físico. Foram criadas estratégias de enfrentamento, não só do cuidado com a contaminação, mas principalmente no modelo de cuidado psicossocial. De certa forma, avalia-se que os trabalhos desenvolvidos até esse momento deram conta de proporcionar atenção psicossocial preconizada pela luta antimanicomial, mesmo diante das mudanças realizadas, tendo como foco principal a redução de danos e de agravos à saúde mental dos usuários.
COVID-19, Residência Multiprofissional, CAPS AD, Redução de Danos, Cuidado, Atenção Domiciliar.