Considerando que a Secretaria Municipal da Saúde de Aracaju em Fevereiro/2020 elaborou um Plano de Contingência para enfrentamento da infecção humana para o Novo Coronavírus 2019-nCoV, visando fortalecimento da capacidade de resposta e da organização dos serviços. O referido plano descreve como o município deve se preparar e responder a emergência em saúde de acordo com os cenários de risco, através da avaliação de ameaças e vulnerabilidade, de acordo com o nível de resposta de caracterização de cada momento da epidemia para Influenza.
A organização prevista para os atendimentos hospitalares segue do nível 1 ao nível 4, conforme o número de casos e a gravidade dos quadros clínicos. Foram destinadas 8 Unidades Básicas de Saúde - UBS (uma em cada região de saúde do município) para atendimento exclusivo a pacientes com Síndrome Gripal, tendo inclusive seu funcionamento estendido até as20 h de domingo a domingo. Esta medida visa desafogar os serviços de urgência e evitar a circulação dos pacientes sintomáticos (mais leves).
Ademais, a fim de monitorar os pacientes sintomáticos e com potencial para agravamento, identificados através das portas de entrada aos serviços de saúde de Aracaju, quais sejam: Atenção Primária à Saúde, especialmente através dos Agentes Comunitários de Saúde e em uma das UBSs de referência citadas acima; MonitorAju, através do cadastro pela internet, telefone e/ou aeroporto, foi criado o Programa Aracaju Pela Vida.
O objetivo geral do projeto foi diminuir o número de pacientes graves nas urgências municipais e, assim, diminuir os óbitos especialmente em idosos e pessoas com comorbidades. Para tanto, como objetivos específicos são apontados:
Realizar busca ativa dos pacientes sintomáticos que tenham potencial de agravamento e tenham sido identificados nos canais de atendimento;
Avaliar os pacientes visitados, considerando o perfil de vulnerabilidade clínica;
Avaliar as condições de distanciamento social e capacidade de cuidado da família ao paciente em domicílio;
Realizar testes RT-PCR ou teste rápido em casos suspeitos, a depender do período de início dos sintomas;
Orientar sobre os sinais de alerta em que os pacientes devem procurar uma unidade hospitalar;
Solicitar transferência ao Hospital de Campanha e/ou leitos de enfermaria, considerando o grau de classificação de risco;
Solicitar retaguarda do SAMU em casos identificados como graves.
O programa iniciou suas atividades em 22 de junho de 2020 e é formado por 8 equipes compostas por médico e enfermeiro, divididos nos turnos manhã e tarde. As equipes têm como ponto de partida e chegada a Sede da Secretaria Municipal da Saúde e as visitas são realizadas de segunda a sexta-feira, das 8 h as 18 h e direcionadas, de acordo com avaliação dos dados, aos bairros com maior número de idosos, além do alto índice de mortalidade pela Covid-19.
A triagem dos pacientes é feita pelo enfermeiro da equipe, seguindo o escore criado pela equipe médica da SMS considerando o grau de vulnerabilidade e possíveis fatores de complicação, no dia anterior à visita.
Cada equipe faz uma média de 16 atendimentos por dia e vai a campo munida dos equipamentos e materiais básicos para atendimento a esse perfil de pacientes como: oxímetro, testes rápidos e RT-PCR, entre outros.Conta com o suporte de duas ambulâncias para remoção de pacientes para o Hospital de Campanha, hospitais municipais e aciona a Secretaria de Estado da Saúde através do SAMU, caso necessário. A ação de avaliação in loco e orientação clara à família, visa diminuir as ocorrências de casos graves nas portas de urgência e/ou UBSs, quando já não há condição favorável para intervenção médica, demandando leitos de alta complexidade, já tão escassos em tempos de pandemia.
A evolução da taxa de ocupação dos leitos de enfermaria adulto na Rede Pública Municipal entre os dias 15 e 22 de junho de 2020 vai de 65,8% para 84,7%. A gestão municipal, diante do crescente número de internações e a fim de evitar o colapso no sistema de saúde local, criouessa estratégia para prevenção e monitoramento dos casos suspeitos e confirmados, dada a gravidade e rapidez da evolução dos pacientes com quadro de Covid-19.
Há que se destacar a importância da participação dos ACS e/ou ACE na identificação dos casos, além do seu peculiar conhecimento do território e grau de vulnerabilidade da maioria de seus moradores. O Aracaju Pela Vidavisou o envolvimento da APS nas ações de combate à pandemia, o que vinha sendo uma dificuldade em Aracaju.
Após a segunda semana de atuação foi percebida uma sensível diminuição dos casos graves nas portas de urgência e, consequentemente dos óbitos no município. As visitas estão sendo vistas como ponto positivo pela população, que sente mais segura com a orientação das equipes e acompanhamento complementar aos demais canais instalados na SMS.
Entre a semana 26 e 27, início das atividades das equipes, o número de óbitos num intervalo de 7 dias era de 87 casos, o pico de casos em Aracaju. Após o trabalho das equipes, focando nos pacientes com potencial de agravamento como idosos e grupos de risco, este número diminuiu significativamente, chegando a 63 casos na semana 28 e 43 casos na semana seguinte.
O programa, que é voltado para casos suspeitos ou confirmados da COVID-19 nos quais há riscos de agravamento, como em idosos ou em pessoas com comorbidades, tem sido bem avaliado pela população de Aracaju e, suas ações mostram um significativo impacto na evolução da doença no município, especialmente no tocante ao acometimento das formas mais graves da COVID-19 na população.
O principal pilar do programa é a possibilidade de atendimento precoce da população triada, bem como, caso seja necessário, a solicitação de internamento considerando o grau de vulnerabilidade social (condições de tratamento e isolamento adequados) e de saúde da população infectada.
Dessa forma, o Aracaju Pela Vida se configura como uma estratégia complementar dentro dos vários serviços na atuação contra a pandemia, seja na APS, nas retaguardas, no Hospital de Campanha ou nos canais remotos de atendimento.
Até o dia 25/09/2020, 1290 pessoas foram atendidas pelas equipes do Aracaju pela Vida.
COVID-19, Visita domiciliar, acompanhamento, óbitos, comorbidades